Hoje, ao abrir a porta de casa, me deparei com um filhote de veado — um bebê. Ele estava ali, sozinho, deitado na grama, quietinho. Num primeiro momento, senti um aperto no peito. Onde estaria sua mãe? Teria sido abandonado?
Fui pesquisar e descobri que é comum, na natureza, as mães deixarem seus filhotes em lugares que consideram seguros, para voltarem até 24 horas depois.
Elas fazem isso para protegê-los, pois a presença constante da mãe pode atrair predadores. O bebê fica ali, quietinho, esperando.
Na mesma manhã, levei para a terapia uma dor antiga que foi tocada por essa cena.
Na semana anterior, havia acessado uma parte da minha infância — uma ferida que ainda estava aberta, mesmo tantos anos depois. Era a dor de um abandono que não foi maldade, mas foi sentido assim pelo meu coração de criança.
Minha mãe precisou viajar a trabalho para outro país e ficou fora por três meses. Eu tinha 9 anos.
Lembro do momento em que a deixamos na rodoviária: voltei no banco da frente do carro (sim, sou da época em que as crianças andavam ali), chorando baixinho, enxugando as lágrimas para que meu pai não percebesse minha tristeza.
Eu não queria preocupar ninguém. Sempre fui uma menina que escondia as dores — não gostava de mostrar fragilidade.
Durante aqueles três meses, senti um vazio enorme, um abandono silencioso. Medo, saudade, solidão.
Mas tudo era vivido em segredo, porque havia um irmão mais novo e, na minha cabeça de criança, era ele quem precisava de ajuda — não eu.
Assim, aprendi a me virar sozinha, a resolver meus problemas sem pedir apoio, a chorar escondida, a ser “forte”.
E foi assim por muito tempo… ou melhor, quase a vida toda (rs).
Porque, graças ao caminho terapêutico, aprendi que não preciso carregar tudo sozinha. Que mostrar minha vulnerabilidade não me torna fraca.
Ao contrário: me torna inteira.
Na terapia, acessei essa memória e resgatei o “amor interrompido” com a minha mãe.
Senti de novo aquela dor da despedida, o vazio da ausência, mas também percebi algo precioso: minha mãe voltou, como havia prometido.
Ela retornou para o seu lugar de mãe — o lugar que, de certa forma, nunca deixou.
Mas quando ela voltou, eu já não era a mesma. Algo em mim tinha ficado preso no passado, naquele banco da frente, aos nove anos.
E esse pedaço só foi resgatado agora, aos 41.
Hoje, eu me reencontro comigo mesma. A criança que ficou esperando, em silêncio, pode finalmente se integrar à mulher que eu sou.
Recebo de volta o colo, o aconchego e o amor da minha mãe — não o literal, mas o simbólico, o interno.
Quando olhei para aquele filhote de veado, olhei no fundo dos olhos dele e senti a dor que, um dia, foi minha.
Mas como essa dor já havia sido acolhida, pude dizer em silêncio:
“Eu vejo o seu medo, vejo a sua fragilidade. Mas sua mãe vai voltar, como a minha voltou. E você voltará a se sentir protegido.”
Algumas horas depois, a mãe do veadinho realmente voltou. E os dois foram embora juntos, tranquilos, como se nada tivesse acontecido.
Hoje, aos 41 anos, também recebo a minha mãe de volta — dentro de mim.
E assim como aquele baby deer, eu volto para casa.
Para a minha casa interna. Inteira.
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